Ônibus [f.red de auto-ônibus] S.m. 2 n. 1. Veículo automóvel para transporte público de passageiros, com itinerário preestabelecido. 2. P. ext. Qualquer veículo com capacidade para grande número de passageiros. [Sin. Ger.: auto-ônibus]
Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
O motivo deste relato começa há aproximadamente dois anos atrás, quando decidi cursar relações internacionais assim que acabasse o colegial. Nascido em Bento Gonçalves, percebi que o único modo de estudar o que queria era morar em Porto Alegre. Ao mesmo momento, percebi que teria que viajar invariavelmente todos os fins de semana para a terra do vinho. Ou era isto, ou não viria, dizia rispidamente minha mãe.
De um ano e meio pra cá, precisei então perder todos os meus domingos, antes de descanso, em uma função dispendiosa, entediante, e cheia de fatos irreverentes, tais quais renderiam talvez um livro. Arrisco-me a dizer que sou um expert em viagens de ônibus. Sei de tudo. Todas as furadas, manhas, cobradores, horários, motoristas, um conhecedor completo das viagens de média distância.
Mas nem todos que viajam são conhecedores como eu. Assim como meu amigo Juremir, sou gênio da percepção. Um gênio preguiçoso, mas gênio. Percebo fatos imperceptíveis a qualquer um, ou apenas aos passageiros desligados. Semana após semana analiso tudo e todos os que se envolvem nesses diazinhos medíocres de domingo. Cheguei até a fazer as contas de quanto tempo passo dentro do veículo anualmente: cerca de 200 horas.
Como disse, todas as histórias vividas nesses domingos renderiam um livro, iria deixar de fora muitas, então como exemplo, usarei apenas minha última viagem sentido Bento Gonçalves Porto Alegre:
O ritual de todo santo domingo começa de manhã cedo, por volta das treze horas. Isso não é hora para se acordar num dia depois de sábado, deveria estar na lei. Acordo sempre pensando em qual dos horários deverei escolher. Sempre depende. Se tem jogo do Inter, é depois do jogo. Se não tem, tanto faz. Ligo para rodoviária e a atendente me saúda com a animação de sempre, num morto tom: rodoviária. Simples assim. Quem liga tem que fazer um esforço para conseguir informações. Depois de consegui-las, fico sabendo que minha única alternativa para viajar no dia seria as dezesseis e trinta e um. Sim, e um. Com pouco tempo útil, apresso-me para as malas, tenho que me lembrar de tudo: roupas, toalhas, livros e afins; quase sempre dá certo.
Depois do abraço apertado e de ouvir as recomendações semanais da minha mãe (acho que a recomendação é eterna, nunca muda), pego uma carona com meu pai até a rodoviária. No carro, as mesmas recomendações, mais amenas, porém não tão menos sérias.
É sempre assim, toda semana.
Quando chego ao entorno da Estação Rodoviária de Bento Gonçalves, entrada lateral, pela Rua Gen. Gomes Carneiro, me sinto com um pé na era medieval, um lugar grotesco, com aquela escadaria de pedra, sórdida e fria está na lista dos piores lugares que freqüento. Mas ao acabar de subi-la, a redenção. Aquela moça que vendia as passagens, merece uma descrição à David. Loura e magra com pele bronzeada e marcas do sol. Tão bonitas essas marcas de sol, todas as mulheres merecem ter uma. Fitou-me com seus olhos esmeralda e gentilmente sorriu com um ‘Oi’. Evidentemente que a loura moça falou comigo por que eu era o próximo da fila. Troquei o horário da minha passagem umas três vezes, mesmo já tendo escolhido uma, apenas para olhar a moça bonita, do nome feio, com seios rijos e pele morena do sol.
Comprada a passagem, havia um tempinho a matar, e a fartura do almoço já não faz mais efeito no estômago ruminante. A vontade de comer um salgado em rodoviária sempre existe, porém fazê-lo não é recomendável. Por mais dourada que esteja a coxinha, por mais crocante que pareça o pastel, não o faça. Agora, o cafezinho da lancheria do Gabardo é uma boa pedida, contando com o humor fenomenal dos seus atendentes. Até o Faustão fica engraçado perto da falta de humor daqueles caros.
Estou munido de três bagagens, a mala, uma sacola, e a mochila. A mala fica com o assistente, novo, ainda não descobri o nome dele. O moço ajeita cuidadosamente a mala para que não caia no balançar da viagem. Subindo no degrau do ônibus, entrego a passagem ao motorista, ele me lembra: poltrona quarenta e um. Fiquei atônito. Quarenta e um?! Sempre escolho um assento mais ao meio. Melhor, menos cheiro do banheiro. Deveria ter parado de olhar para a loura bela e perguntado sobre a disposição do assento. Além de ser no fundo, era no corredor.
Entrar no ônibus por último é engraçado, todos te olham como se tivesse algo de errado com você. Observei-os um a um, analisei todos. Mas agora me lembro apenas das estrelas peculiares da viagem. Como disse, sou um gênio falho. Começando pelo senhor sentado ao meu lado. Ele parecia bondoso, vi isso no olhar dele, mas mesmo assim não gostei dele. Não gosto de pessoas que tentam ler o mesmo texto que eu. As vezes sento do lado de um ‘rouba-texto’. Estava lendo um material sobre acordos internacionais, e o velhinho nem aí, espiava na cara dura. E eu, legal que sou, tive que me inclinar pra ele ler também, só faltou ele pedir para que eu esperasse pra virar a página.
Atrás de mim sentou um senhor conversador, ao lado de um gurizão com gel no cabelo, de regata branca, metido a malandrão. Mas o tiozinho conversador não queria saber se ele era malandro, não queria saber o que iam achar dele conversando com um velho. O tiozinho conversou mesmo. E bastante. Se na minha prova de acordos internacionais eu escrever sobre a vida de um pedreiro, vocês sabem porquê.
Toda viagem de ônibus, pra ser completa, tem que ter um bebê chorando. E aquele bebê chorava bastante, um dos mais chorões que já acompanhei. Mas seu choro era ofuscado por um ruído maior. Um ruído que uma vez ouvido, nunca seria apagado da minha memória. Aquela senhora tinha a tosse mais chata que já ouvi, li, e ouvi falar. Aquela tosse era uma mistura de rouquidão com grito, puxando para uma necessidade de atenção. Tudo que bastava era que alguém conversasse com ela, para ela contar os seus problemas de saúde, como toda senhora mais velha faz. Principalmente em ônibus.
Ler viajando não é uma tarefa fácil, mas não tem nada a ver com o balangar do ônibus, ou das tonturas tidas por alguns. No meu caso, é o tio ‘rouba-texto’, é o pedreiro conversando com o malandrão, o bebê chorão, a senhora com a tosse gritada e fingida; até os quietos ouvindo música nos fones me incomodam. Incomodam-me por que justo naquela viagem barulhenta estava sem os meus.
Passadas cerca de duas horas do início da viagem, com o ônibus chegando próximo a Porto Alegre, o sol começa a se por e os prédios cinzentos de Canoas a desaparecer. Vários largam seus afazeres, param de roubar os textos, param de tossir forçadamente, apenas para olhar o sol se pôr. Era um pôr do sol bonito mesmo, num misto de várias cores, às margens do Guaíba. Mas eu acho esse pôr do sol um saco. Toda a bajulação ao redor dele. Nem é tão bonito assim. E o pior, nem temos mérito nele.
Por fim, a elevada sentida pelos pneus do veículo avisam que a rodoviária está perto. O antro da sujeira da cidade, o mais medieval dos estabelecimentos, o mais feio dos lugares. Acho estranho, sempre tem uns apressados, que já se levantam, ficam a postos, arrumam suas coisas, para chegar logo nesse lugar onde até o ar é ruim. Mas no final, todos saem ao mesmo tempo, devagar e sempre, como bois rumo ao abate.
Depois de toda esta análise, lembro: Quase sempre tudo dá certo. Quase todos os domingos eu sobrevivo. Quase sempre sou um gênio. Mas desta vez não, havia esquecido a chave do meu apartamento.
Texto produzido para aula de Antropologia.
Legal, Pedro.
Muitíssimo bem escrito por sinal. Até fico com vontades de retomar um blog.